"Como é bom imaginar que um dia pode transformar-se numa recordação maravilhosa.
Acordo num Domingo de Páscoa com um vazio imenso a querer tomar conta de mim. Ainda assim, arranjo-me no melhor que posso e saio à rua. Sempre contigo no meu pensamento.
A meio da tarde, já exausta de te resistir, digo-te que preciso de estar contigo e tu respondes: "Então mexe-te!". E eu saio porta fora!!
Já quando estou preste a chegar a ti, apodera-se um nervoso miudinho e eu tenho 19 anos outra vez....
Sigo-te e deixo o meu carro. Entro no teu.
Estranhas eu não te beijar. Não o faço porque o nervoso miudinho ainda está dentro de mim. Mas, quando arrancas, beijo-te a testa e tudo passa. Entrego-me à tua presença e esqueço o mundo. Descanso a mão na tua perna e mais tarde os meus dedos percorrem os teus braços perfeitos. Ouvimos uma das nossas músicas no rádio e por momentos estamos em silêncio e em perfeita sintonia.
Depois voltamos aos teus planos. Os meus ficam guardados, mesmo que tu insistas com o teu "vamos lá tentar outra vez...". Não estou ali por causa da minha vida preocupada. Estou ali por ti e só tu me interessas. Quero saber de ti, ouvir a tua voz, o teu respirar, o teu sorriso.
Passeamos pelo supermercado como dois amantes numa loja de conveniência aberta durante a madrugada. Tu tocas no meu corpo e eu sinto-o tão bem. Eu agarro-te e encosto-te junto a mim. Sabe tão bem e é tão perfeito. Não escondemos, mas também não ligamos a quem está à volta. E continuamos a nossa tarde como se o fizéssemos todos os dias.
Mostras-me o teu espaço, as tuas ruas e paramos para aproveitar o resto da tarde, sentados numa esplanada.
Sinto-me no meio de Bagdad. Bagdad completamente deserto e pacífico.
E fico ali. Oiço-te e admiro-te enquanto pessoa. Gostava tanto de ser como tu. De ter a tua força, a tua raça, o teu brilho.
O sol já não está quente e regressamos ao momento em que entrei no teu carro, desta vez, para sair dele.
Ao início da ideia de te deixar partir, para de novo voltar à minha vida, agarro-te e beijo-te. Chamas-me "abusadora" mas a tua mão segura-me.
E depois tu partes.
E eu fico naquela estrada de terra batida. Não quero ligar o motor. Tenho medo de me esquecer de um único detalhe que seja daquele Domingo de Páscoa."
05-04-2010